sexta-feira, 6 de maio de 2016






O Congresso das Letras


Um dia houve o congresso das letras. O objetivo era definir qual de todas seria a mais importante. 
O local era uma grande folha de papel e um homem escrivão conduzia a reunião. 

Seu trabalho era garantir que cada letra tivesse sua vez para falar desenhando-as em ordem. 
Conforme proposto o A foi o primeiro:
-É claro que eu tenho proeminência sobre todas vocês. Sou a primeira letra da palavra "amor". 
-Você? Como assim? Eu sou a melhor porque "bondade " tem início em mim. --disse o B. 
E o C retrucou:
-  Comigo se escreve"coração "
Seguindo o protocolo as demais foram se apresentando tentando demonstrar sua superioridade com as palavras "dom", "eternidade", "felicidade", "glória ", "humanidade" "inteligência" e "juventude". Mas na vez do K ele não soube o que dizer e pulou a vez. 
E os argumentadores seguintes recorreram às palavras:"liberdade", "maravilha", "novidade ", "ordem ", "poder", "querer", "raciocínio ", "sorriso", "tudo", "união ", "vitória". 
Mas o W  não disse nada. E o X, querendo também participar levantou-se:
-Sou usado para escrever o nome do maior jogo de todos os tempos"xadrez".
 O Y e o Z também preferiram permanecer em silêncio.
Assim, os quatro que não promoveram-se foram excluídos pelas demais letras. 
-Haha-ouvia-se deboches-Não sabemos quem é o mais importante, mas já conhecemos os piores. 
E o escrivão, sendo também o escolhido para julgar a causa, analisou-a.  Depois de refletir cuidadosamente, deu o veredicto:
-A minha decisão é que há um empate. 
Houve um silêncio. 
O homem por fim revelou:
-As quatro letras ignoradas são as vencedoras. 
Ouviram-se exclamações iniciando com todas as vogais seguidas de um coral dos perdedores. 
-O que? 
-O K, o W, o Y e o Z demonstram o verdadeiro espírito dos campeões. 
Eles são humildes, mas extremamente importantes. Embora não nos lembremos de palavras "especiais" escritas por eles, posso dizer seguramente qual sua utilidade.  
E como ninguém se manifestasse ele prosseguiu. 
-A raridade é que torna o ouro valioso.
Até então ninguém parecia ter considerado essa questão porque olharam admirados para o quarteto que já dava as mãos.
-Todos , exceto estes-o escrivão apontou para os vencedores- podem introduzir palavras lindas bem conhecidas. 
Agora via-se consoantes e vogais estufando o peito esquecendo-se por um momento sua derrota. E num instante depois , tiveram que encarar a realidade com o discurso. 
-...Mas se eu pedisse aos senhores que iniciassem palavras negativas de igual modo seriam capazes. Os que recebem a coroa hoje são os que nunca lideram ou participam de junções de letras que geram sentidos ruins. 
Sua força está em guiar nomes próprios,palavras estrangeiras ou outras poucas desconhecidas, ou seja, eles fazem coisas simples, mas grandiosas e se atém ao que mais importa. 
O escrivão tomou a caneta e como se fosse um martelo pressionou-o na última linha com sua assinatura. 
E encerrou a sessão. 


quinta-feira, 5 de maio de 2016




O girassol dorminhoco


Havia um jardim de girassóis muito bonitos que enfeitavam a vista do quarto de Samir, um autista de oito anos.
Seus pais fizeram aquela plantação porque o menino parecia amar girassóis. Acreditavam também que a beleza dessas flores ajudaria o menino a ter contato com o mundo externo.
Todas as tardes o rapazinho abria a janela e contemplava o jardim por horas.
Mas de todos os girassóis havia um que chamava a atenção. Ao meio dia, quando os outros olhavam para o sol ele continuava a "dormir".  
Um dia, o pai de Samir decidiu arrancar o girassol diferente. 
-Este não está cumprindo sua função. Pra que nos serve?- Disse o homem enquanto pegava seu facão.
Mas o garoto correu até o pai em disparado chegando a tempo de impedi-lo:
-Pai, não o arranque. 
O pai, muito confuso e surpreso virando para o filho, abaixou-se até a sua altura.
Havia sido a primeira vez que Samir dirigia-se a ele. Então, focando bem nos olhos do garoto disse lentamente:
-Tudo bem, filho. 
-Obrigado.Não posso perdê-lo.
A esta altura a mãe do menino se aproximava e quis saber o que estava acontecendo. Depois que seu marido relatou, com os olhos aguados, perguntou ao filho:
-Por que não quer que este girassol saia daqui, querido?
-Este girassol sou eu, mamãe. Também sou diferente. 
Mãe e pai se entreolharam e abraçaram o menino.
Nesse momento, pela primeira vez o girassol preguiçoso encarou o sol. 
E aquele acontecimento ficaria registrado na mente do casal para sempre, pois era o símbolo do novo nascimento de seu filho.









quarta-feira, 4 de maio de 2016




A casa abandonada



No alto de uma colina, numa pequena vila, havia uma casa abandonada exceto pela presença funesta de lobisomens e vampiros. Por isso a casa era temida e ninguém ousava aproximar-se dela.

Um dia, um casal de turistas desavisados adentrou-a. Ouviu-se gritos. Em instantes acionou-se o corpo de bombeiros, a ambulância e até a polícia para tentar resgatar o casal. 
A busca foi executada minuciosamente e nenhuma pista deles foi encontrada.
Passaram-se dois meses. Era noite de lua cheia. O casal foi visto na varanda da casa. Ele transformou-se em lobisomem e ela em vampira.
Essa era a história que a professora do sexto ano contava para seus alunos. Segundo ela, um caso real ocorrido há duzentos anos. A casa abandonada ficava do outro lado da vila e continuava sem ser visitada pelo medo que provocava.
Durante a aula, um dos alunos, Estevão, cochichou para seu irmão Breno.
_Isso é mentira. Apenas uma lenda sem sentido.
-Mas eu prefiro manter-me sem saber. Disse o outro.
-Você está com medo?
-Não exatamente. Apenas garantindo a minha proteção. Sabe como é, sou jovem e...
-Ah, você está com medo sim- debochou Estêvão cortando-o.
-Não estou não!
-Então mostre-me.
-O que está sugerindo?Quis saber Breno.
E o irmão aproveitando a oportunidade falou:
-Vamos hoje à noite na casa. Filmaremos tudo e assim provaremos a farsa dessa história.
Tendo o irmão concordado, à meia noite os dois entraram na casa abandonada. E começaram a vasculhá-la com o auxílio de uma câmera filmadora. Depois de a explorarem por uma hora, verificaram que não havia nada de errado ali, exceto pela presença de muito mato, corujas, teias e aranhas. 
Quando já saiam pela porta, encontraram numa pedra gravada o seguinte:
"Vamos contar a todos, meu querido Ruan, que nesta casa tem lobisomens e vampiros. Direi qualquer coisa para ficar com ela. Quero que moremos aqui."
-Hei, espere, Ruan não é o nome de um dos turistas da história?
-Sim, disse Estêvão. É isso! O casal tramou tudo para ficarem com a casa. Não te disse? Toda essa história é uma grande mentira!
Assim, preferiram ir embora logo com aquelas provas, antes que encontrassem algum perigo real, pelo caminho, segundo Estêvão, as "terríveis cobras"!
No dia seguinte mostraram o que descobriram para a turma. Todos ficaram admirados. A professora, após assistir ao vídeo pediu para divulgá-lo na imprensa.
E o filme real da Casa abandonada teve uma grande repercussão. Finalmente a lenda estava desmascarada.
O líder da vila Rafael sabendo do caso mandou chamar os dois rapazes. Ao se apresentarem, ele disse-lhes:
-Gostaria de oferecer-lhes meus cumprimentos e um presente.
-Um presente?- Breno perguntou animado.
-Sim, e acho que vão gostar. Vocês dois agora são os novos donos desta casa.
-SÉRIO?-Disseram juntos os meninos.
-Sim. Vocês foram os únicos a desvendarem o mistério por centenas de anos. Parabéns! Vocês merecem!
Dito isto, o prefeito cumprimentou-os convidando-os para jantares e entrevistas. 
Logo os garotos estavam ricos e famosos e foram morar com seus pais na casa que receberam de herança, conquistada não pelo sangue, mas por uma nobre virtude: A coragem!





















terça-feira, 3 de maio de 2016




O leão Vegetariano

Uma noite uma embarcação estava navegando pelo mar Ártico e uma grande tempestade causou o seu naufrágio. Apenas um tripulante sobreviveu: um rapaz de quinze anos chamado Jânio. Isso porque ele era um exímio nadador e conseguiu sustentar suas braçadas por centenas de quilômetros até a ilha mais próxima. 
E o rapaz logo percebeu que esse lugar não era menos perigoso que em alto mar, pois havia nele muitos animais selvagens.
Entretanto, com os dias Jânio foi utilizando técnicas interessantes para manter-se vivo, não simplesmente por sua experiência como escoteiro. O fato é que a necessidade é capaz de criar formas de sobrevivência em condições bem extremas.
Ele fez sua própria cisterna com a água da chuva, suas roupas de folhas e cisais e alimentava-se com peixes e algumas frutas que pôde encontrar.
Mas a ilha era gélida à noite e o abrigo que conseguiu construir não fornecia o calor que precisava. 
Um dia encontrou uma caverna. Ela era muito escura, mas pareceu-lhe suficientemente quente e confortável.Ela estava totalmente vazia, por isso considerou que seria sua solução.
Suas onze primeiras noites foram tranquilas, mas na décima segunda ouviu um rugir leonino no interior da caverna. 
Seu medo foi tão grande que não ousou se mexer. Apenas esperou para saber quais seriam suas chances. Foi quando dois grandes olhos, como faróis iluminando o seu quarto improvisado teimaram em observá-lo. Estavam ali, faiscantes e amarelos, aproximando-se lentamente. Seus rugidos aumentavam como o pavor de Jânio. Até que a uma distância razoável, o rapaz pôde decifrar a visão. Era um filhotinho de leão. 
Ele parecia faminto, mas indefeso.
-´Você é um filhotinho.Que lindo!Está tudo bem. Vou alimentá-lo. Venha. Disse o jovem guiando a fera como a um gato doméstico.
"Ele está perdido. Eu também.Nós podemos ser amigos"-Disse a si mesmo.
E como se outra voz o contradissesse pensou segunda vez:
"Mas isso é muito perigoso. Seu bando pode estar procurando-o.Se souberem que estou com ele..."
Voltou então para a primeira linha de raciocínio:
"Não, eu preciso tentar.Vou observar por uma semana para ver se o caminho está seguro"
Assim, toda noite, por sete dias ficou a espreita, escondido do lado de fora da caverna para ver se algum leão adulto chegaria. Passado esse tempo, nenhum visitante manifestou-se.
Decidiu então criar o leãozinho como a um animal de estimação. Mesmo sabendo dos riscos que corria de algum leão grande finalmente aparecer ou de aquele mesmo revoltar-se contra seu criador, quis arriscar. Pensou:
"Cuidar deste pequeno me manterá vivo e ocupado.Além disso, ele precisa de mim."
A partir daí todos os dias o rapaz alimentava o filhotinho de leão, não com carne, mas com vegetais e frutas.
Passados muitos meses o filhotinho transformou-se num grande e belo leão.
E, apesar de sua aparência, era muito manso e não comia carnes. Mas, todas as vezes que o rapaz era ameaçado por algum predador, o leão assumia sua posição de rei da floresta e protegia o dono.
Assim, por dez homem e leão conviveram juntos, em harmonia como dois grandes amigos. Até que um esquadrão de salva-vidas desceu de um helicóptero e salvou o homem.
Mas Jânio não sabia mais viver sem o leão e decidiu resgatá-lo também. Voltou para a floresta e levou o leão consigo.
Logo os dois estavam num circo, trabalhando na sua principal atração: O Leão Vegetariano!









segunda-feira, 2 de maio de 2016







Lágrimas de um crisântemo


Havia um jardineiro que colecionava crisântemos. Em suas amostras haviam muitas cores, como: rosas, azuis e violetas.
Dentre eles havia um crisântemo prateado, o único da cor. Ciente de que era raro e o mais bonito, um dia perguntou ao dono:
-De qual de nós te afeiçoas mais?
-Não tenho preferência- Respondeu sinceramente o jardineiro.
-Mas de certo há um que chama mais tua atenção.
-Ah, não, todos são iguais para mim.
-Mas como podes dizer isso? Não percebes que cada um tem uma cor ?-Insistiu o crisântemo.
Mas o jardineiro tentou explicar-se com outra pergunta:
-Se um dia  te pedisse para optar entre a terra e o céu qual seria a tua escolha?
-Nenhuma-Não faz sentido.Ambos são preciosos.Respondeu o crisântemo.
-Mas um é marrom e outro azul, não é verdade?
- Sim, mas são de espécies diferentes.
Então o sábio jardineiro disse:
-Para quem não conhece os corações todos são iguais.
-O que queres dizer?
-Sou teu jardineiro. Conheço-te e sei que não és igual a nenhum dos teus irmãos.
E o crisântemo confuso perguntou:
- O que queres dizer com isso?
-Dois seres de mesma espécie podem ser mais diferentes entre si que de espécies diferentes.
-Ah sim, sou muito diferente. Minha cor é única dentre os meus.-Disse pomposo o crisântemo.
Mas o jardineiro percebeu que sua criação prateada precisava de um aprendizado mais eficaz. Assim, tomou uma tinta vermelha e pintou a flor. Agora haviam outros semelhantes a ele.
-E agora, o que o diferencia dos demais?-Perguntou seu dono.
E o crisântemo ficou tão triste que pôs-se a chorar.
-Não quero, não quero ser mais um!
-Ninguém é um na multidão quando há em si um coração batendo.És único.Não entendes?
Mas o crisântemo estava muito triste para responder. Então o jardineiro prosseguiu.
-Quando a dor atinge o coração ninguém quer saber sua cor. Quando ele sangra, que diferença faz ser vermelho ou azul? Podes sentir isso?
Foi então que o crisântemo levantou a cabeça e olhou ao redor. Ele parecia fisicamente tão igual, mas nunca sentiu-se tão diferente. Sua sensibilidade fazia-lhe único.Estava começando a compreender o jardineiro agora.
-Sim, sou único. Que importa minha cor? Agora que meus olhos físicos não me cegam mais, pela primeira vez vi meu coração e sua singularidade.
E o jardineiro sorrindo, regou a flor que voltou a ser prateada.
-Entendestes bem- Disse ele-Agora tens um coração prateado. És portanto inestimável para mim e nunca o venderei.




sábado, 30 de abril de 2016





A ilha dos sonhos

Um pobre homem e seu filho adolescente Renan receberam do tio avô do rapaz 
que havia falecido, uma mansão em um país chamado Ambrósio.
Para chegarem a esse lugar, deveriam viajar por um oceano muito perigoso. 
Mas decidiram encarar a aventura porque ansiavam muito ter uma linda casa.
Embarcaram num navio muito velho. Após alguns dias, ele sofreu um grave vazamento do motor.
Tiveram então que entrar em um pequeno bote e remar para chegarem a costa. Passaram por sérias dificuldades, como fome, sede e cansaço.
Depois de um ano , o pai ficou bem doente e morreu, sendo preciso que o filho o jogasse ao mar com pesar e dor, fazendo com que de suas lágrimas se juntassem ao oceano.
Mas decidiu jamais recuar. Não era só por ele, mas também pelo pai e o legado que esperava que levasse por gerações.
Então, mesmo em meio a alucinações resultantes da escassez de alimento e água potável, o rapaz prosseguiu.
Ele remava, remava e remava sem parar, até quando anoitecia e dormia sobre os remos.
Até que avistou terra firme, uma pequena ilha que parecia abandonada.
O rapaz explorou-a e sua alegria foi imensa quando encontrou água e comida em abundância. Parou para refletir sobre como chegaria ao Ambrósio.
Enquanto assim fazia, ouviu uma voz que dizia:
 -Renan, Renan, levante-se e peça-me o que desejas.
Assustado, o rapaz levantou-se, mas não viu nada.A rajada do forte vento o assustou, fazendo voar passarinhos que disputara com ele as maçãs de uma árvore próxima.
-Não me ouves?- A voz continuou.
Agora ele começou a achar que estava ficando louco, pois ao aguçar os seus olhos, constatou que de fato não havia ninguém além dele e a natureza que o cercava.
-Quem está aí?- arriscou perguntar.
- Seu subconsciente.- Respondeu a voz.
- Como assim?
- Você está num sonho agora. Esta ilha é o que o prende aos teus desejos mais profundos. Peça e receberás o teu presente.
-Posso pedir o que eu quiser? Quis saber o jovem ansioso.
-Não exatamente.Há duas portas onde poderás entrar: a do passado e a do futuro. Uma renunciará a outra ao ser acionada.O que for escolhido será o teu presente.
E antes que o rapaz trouxesse mais uma dúvida ao interlocutor, este disse:
-Apenas feche os olhos e ouças a ti mesmo. Só saberás pedir se souberes o que desejas realmente.
Outra onda de vento tocou seus cabelos com força.  Cerrou os olhos e leu a sua própria mente.
"O que eu quero de verdade? Está aqui..aqui...Exatamente! É isso! O que mais anseio agora..."- Seus pensamentos ficaram agitados como as ondas que tragaram seu pai.
-Sim, desejo...MEU PAI DE VOLTA !Falou com segurança.
E um forte redemoinho levou-o de volta ao passado, com seu pai, na pequena casa onde moravam. 
O rapaz sabia que um dia chegaria o dia em que herdaria a mansão. Mas não a aceitaria.
Escolheu o amor e não a mansão, pois sabia qual dos dois valia mais. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016





O silêncio da princesa

Há muito tempo atrás havia um jovem príncipe que estava procurando uma moça  para se casar. Para isso ele percorreu todo o reino, mas nenhuma moça o agradou. 
Um dia foi tomar água num poço e uma borboleta pousou sobre sua cabeça.
-Pobre príncipe- disse a borboleta- porque estás a procurar uma jovem se a donzela certa já está ao teu lado?
O rapaz não entendendo o que ela estava dizendo desejou perguntar. 
Mas a borboleta bateu as asas e voou para bem longe sem mais explicações. 
Naquela noite ele não conseguiu dormir, pensando sobre a frase dita por aquela misteriosa voadora.
Pensou em todas as moças solteiras  com quem tinha contato: as amas, as tecelãs, as jardineiras, as cozinheiras, mas nenhuma parecia ser a certa.   
Havia amanhecido e ainda não sabia qual era a moça que ele deveria procurar. 
E no momento em que refletia, Judith, a filha da ama de sua mãe,a rainha aproximou -se. 
Eles eram amigos desde quando se lembrava. Nunca havia cogitado a possibilidade de namorá-la e muito menos casar-se com ela. 
Mas pela primeira vez, naquele momento, enquanto os passos da jovem se direcionavam a ele, disse a si mesmo:
"Talvez sim. Por que não?"
A conexão entre seus cérebros parecia se ligar ininterruptamente a medida em que se olhavam. 
-É você? -perguntou o príncipe à moça. 
- Eu não sei o que está falando, mas eu tenho uma solução para a questão do seu casamento.- Afirmou a moça sentando-se ao seu lado para tomarem o desjejum com a inteligência e liderança que sempre fizeram parte dela. 
-Ah- suspirou o jovem príncipe , continuando  seu diálogo interno, agora se recriminando por pensar na amiga daquela forma. 
Mas Judith continuou:
-Você sempre gostou de música. Sugiro que convide todas as moças do reino para cantarem para você. Aquela que melhor lhe agradar os ouvidos, escolha para ser tua esposa. Porém, elas devem estar de máscara. Somente depois de escolhida a tua princesa, deves tirá-la. 
O príncipe achando a ideia interessante fez um grande baile de máscaras onde foram convidadas todas as moças do reino. 
De uma a uma, todas cantaram. Mas tantas vozes eram lindas que o príncipe ficou muito confuso. 
No momento da última candidata, o príncipe pediu que cantasse como fizera com as outras, mas ela permaneceu em silêncio. 
Ele insistiu por mais uma, duas, três vezes e nada :Um silêncio completo, sendo quebrado apenas pelos murmúrios dos convidados. 
Até que o príncipe  finalmente anunciou com convicção e alegria na voz:
- EU JÁ ESCOLHI MINHA PRINCESA!
Todos ficaram muito curiosos. Ao longe podiam-se ver muitas moças animadas. 
O príncipe pegou um anel, colocou no dedo da escolhida e casou-se com ela ali mesmo. 
Foi então que retirou a máscara da moça. Era sua amiga Judith. Só poderia ser ela. E o silêncio foi um sinal de que ela era única, para que ele a reconhecesse.