quarta-feira, 13 de julho de 2016



Borboleta de encomenda


Era uma bela manhã de verão. Sara estava completando dezoito anos. Já havia recebido presentes e o comemoraria com um grande bolo ao lado da família no final do dia. Mas estava aguardando ansiosamente algo...
Foram dados três toques na porta. Sara correu muito animada. O encomendador entregou-a um pequeno embrulho com um laço vermelho.
Sua mãe fitou-a com uma interrogação no rosto. Mas a jovem antecipou-se:
- É o meu presente de aniversário de Roberto.
Sara e Roberto eram grandes amigos desde os cinco anos. Mas Roberto havia ido morar com a família em outro país e há três anos e desde então o único contato que tinham era o virtual.
A mãe calou-se então e respeitou o momento da filha que disparou até o andar de cima rumo ao seu quarto. Depois de trancar a porta, abriu alegremente o embrulho, onde já podia ver uma pequena caixinha cor-de-rosa.
- Mas que gracinha. O que será que tem aqui dentro? - monologou a menina.
A caixinha era tão delicada e perfumada que gostou da sensação de abri-la. Sempre acreditou que um presente deve ser bem apresentável porque mesmo que ele não seja aquilo que se espera ele será bem recebido.
Naquele momento era o que estava pensando. A cada ano o amigo conseguia fazê-la uma fantástica surpresa, como no ano passado, que colocou dentro de uma caixa minúscula convites para as Olimpíadas de Inverno de Bartor e no ano retrasado que enviou-a dinheiro suficiente para que fizesse uma viagem para sua cidade dos sonhos, Anestesia, onde levou sua mãe.
Agora, qual seria o grande presente que receberia? Mesmo que não fosse tão bom quanto dos outros anos sabia que não se importaria, pois sua própria amizade era o maior presente que Roberto podia oferecê-la.
Deixou de pensar em tudo isso quando finalmente conseguiu abrir a caixa que estava muito bem lacrada.
E teve uma grande surpresa quando viu o que havia lá dentro.
- Borboleta. Borboleta?
Agora Sara estava confusa. Não era Roberto o amigo mais criativo e a autor dos melhores presentes de aniversário do mundo?
Mas como já havia garantido a si mesma, não poderia abalar-se com o produto da embalagem, pois ela por si só já demonstrava carinho suficiente.
Decidiu ser grata, contrariando suas auto-objeções.
Não havia motivo para duvidar de que aquele era um presente especial.
-Tudo bem,  esta borboleta é de fato simpática e afetuosa. Gosto de suas cores também. Mas como ela conseguiu sobreviver?
Suas perguntas internas eram tantas, mas sabia que nenhuma delas poderiam ter respostas a menos que ela simplesmente perguntasse ao amigo ou lesse dele uma explicação.
-Espere- dentro da caixa tem um cartão.- Disse a moça afastando a pequena borboleta que, curiosamente permanecia dentro da caixa, como se aguardasse ordens para sair obedientemente.
Leu então o cartão que dizia:

"Oi,Sara! Feliz aniversário! Esta não é qualquer borboleta. Seu nome é Maribel. Se você chamá-la pelo nome pode fazer um pedido. Eu a encontrei num jardim e ela me contou. Mas lembre-se que esta só pode concedê-la um único desejo antes que volte para seu mundo dos sonhos.Confio que você saberá pedir o melhor! Seu eterno amigo, Roberto"

Ao ler essas palavras, Sara chorou. Como seu amigo podia ser tão leal a ela mesmo tão distante? Quantas pessoas em sua situação fariam o pedido ao invés de pensarem em doá-la a outra pessoa?
Percebeu agora que seu amigo não era qualquer um, mas de fato o melhor amigo de todo o universo , uma espécie de anjo. Assim,já sabia o que pediria.
Tomou a borboleta perfumada em sua mão e disse:
- Desejo que meu melhor amigo, Roberto tenha aquilo que mais deseja em sua vida.
E imediatamente a borboleta desapareceu. Mas Sara sentiu um grande impulso de olhar pela janela.
Sua surpresa foi tão grande ao ver várias daquelas borboletas e ao lado delas uma linda carruagem, de onde saiu seu amigo, que agora era um príncipe. Também haviam várias pessoas muito bem vestidas sentadas em bancos muito brancos. Agora seu jardim transformara-se num cenário de um banquete medieval. Sem dúvida estava sendo dada uma grande festa ali.
Ao descer as escadas, olhou de relance no espelho próximo da porta e viu sua imagem refletida. Ela estava trajando um lindo vestido de noiva. Foi então que percebeu que aquela festa era seu próprio casamento.
Como nunca soube que, desde sempre ela fora apaixonada por Roberto e que era recíproco? Correu então para os braços do amado e viveram felizes para sempre...








terça-feira, 12 de julho de 2016

A galinha e o avestruz




A galinha e o avestruz


Um dia houve um incêndio na fazenda do senhor Neimar. Como haviam muitas árvores próximas umas das outras, o fogo estava se alastrando bem rapidamente. E os bichos correram em disparada para se proteger.
Mas havia uma galinha que estava com a pata quebrada. Um avestruz que corria bem rapidamente vendo-a, decidiu parar.
-Oh, pobre galinha, suba em minha asa que eu te levo para longe daqui.
-Mas eu- respondeu a galinha- tenho que voltar pra buscar algo.
E o avestruz perguntou:
- Vamos então, eu a esperarei aqui até que tragas o que esquecestes.
E a galinha muito contente com a disposição daquele estranho acabou se esquecendo do que perdera. Assim, montou em seu novo amigo.
Logo, os dois já estavam a uma grande distância do fogo e a salvos.
A essa altura a galinha começou a notar o quão bonito, alto e atraente era o seu protetor.
-Eu não sei o que, mas eu tenho a sensação de ter esquecido algo.- disse a galinha.
Mas ela estava tão fascinada com a imagem de seu herói que não conseguia se lembrar do que era.
O avestruz, que era muito gentil, sabendo que a fazenda era muito grande e que talvez mais algum bicho precisasse de ajuda naquela ocasião, quis voltar.
Mas a galinha já havia se afeiçoado dele de tal modo que pediu:
-Não volte. Eu preciso de você aqui. Não vês que tenho a pata quebrada? Se fores embora, quem me protegerá?
E o avestruz insistiu:
-Mas eu preciso salvar mais animais. Há muitos que são fracos...
A galinha então, tão triste ficou que pôs-se a chorar:
-Snif, Snif, não, não vá. E se o fogo te le-var? O que será de de mim?
Até então o avestruz não havia percebido que a galinha havia se apegado tanto assim a ele. E, sentindo compaixão dela teve uma sábia ideia:
-Está bem. Vamos fazer assim.Não precisa chorar. Eu sempre a protegerei , não a abandonarei jamais, mas como há outros que podem estar precisando de mim, eu a levarei comigo para a fazenda.
A galinha a essa altura já havia percebido que não adiantava mais discutir e acabou concordando, mesmo a contragosto.
E os dois se puseram na jornada da tentativa de um ato heroico.
O primeiro local da busca foi o galinheiro, próximo de onde a galinha fora salva.
- Foi bem aqui- Disse o avestruz- Você tinha me dito que esquecera algo.
O calor aconchegante das asas do avestruz era tão gostoso que a galinha quase não se lembrou de novo. Mas o que ela havia se esquecido por tanto tempo agora estava ali, imóvel, carbonizado. Era um ovo, seu ovo, também a casa do que seria seu primeiro filho, um pintinho, que de fato seria lindo.
Mas agora era tarde demais. Ele nunca nasceria. Seu nascimento fora interrompido por uma paixão impossível.
Logo, a mãe galinha pediu para descer do avestruz. Não queria mais alguém que pudesse se esquecer de si mesma e mais ainda do que lhe era mais caro: a família, que ela precisaria reconstruir agora.




Os três lugares do céu




Os três lugares do céu


Numa manhã de verão, banhistas nadavam numa praia e uma onda gigantesca os arremessou para dentro do oceano.
Uma das pessoas que estava no grupo era uma jovem chamada Catarine.
Depois que seu corpo foi sepultado pelo mar, seu espírito foi subindo até um local que pareceu-lhe um cume acima das nuvens. Ao estacionar ali, ela ouviu:
"Catarine, escolha um dos três lugares do céu"
A garota vasculhou o céu para ver de onde vinha a curiosa voz. Mas não viu nada. Foi quando ouviu de novo :
-Catarine, escolha um dos três lugares do céu.
Aquele que conhecia seu nome era como um raio suave que atingia todas as fibras do seu ser, fazendo-a estremecer de emoção.
Não sabia o que era aquilo. Nunca havia sentido tal coisa, mas sabia que era a mais maravilhosa sensação que jamais experimentara. Tentou traduzi-la como uma massagem delicada em sua alma.
"Eu tenho que escolher. Eu preciso escolher"-pensou.
Mas a dúvida começou a perturba-la.
"Eu não conheço os três lugares. Como posso escolher? "
E, como um eco necessário ao seu maior entendimento a voz se repetiu :
-"Catarine, escolha um dos três lugares do céu".
De repente o céu se enrolou como um pergaminho abrindo -se em seguida.
Notou agora em sua frente que haviam três mundos. Ao olhar para o terceiro quis sorrir, ao olhar para o segundo quis toca -lo. Mas ao olhar para o primeiro desejou la morar.
Foi então que a garota acordou. Agora ela sabia qual dos três lugares escolheria.




segunda-feira, 11 de julho de 2016





A Best -Seller

Lilian era uma escritora Best-Seller, conhecida em todo o mundo por seus livros de ficção. Um dia ela estava sentada em sua escrivaninha. Havia uma caneta e um papel nas mãos, mas a imaginação parecia vazia. Algo muito estranho estava acontecendo com ela. Talvez fôsse o sono ou a pressão de ter que escrever. Mas de todas as possibilidades seu receio maior era a ultima: Seu talento poderia estar se extinguindo.
- Não, isso nunca- Garantiu à sua voz interior. 
Levantou-se e foi até a cozinha. Tomou um copo. Precisava hidratar seu cérebro. Talvez assim ele funcionasse melhor. 
Mas para sua surpresa, ao abrir a torneira, verificou que a água havia acabado. Não podia acreditar. Agora ela a girava o máximo que podia, até que, em sua ultima tentativa, uma simples e pequena gota ameaçou cair. Mas, ao invés de espatifar-se, ela cresceu curiosamente, como se sua sede a alimentasse. O fenômeno continuava enquanto a mulher o acompanhava inerte. A gota transformara-se numa bolha gigante e parecia não querer mais parar. Foi quando, num instinto de auto-proteção, ela abriu uma gaveta de onde retirou um garfo. Espetou então com o objeto aquela coisa, mas ao invés de estourar, puxou-a para dentro.
Lilian gritou por socorro, mas logo imediatamente percebeu que estava dentro de uma espécie de bolha de quase vácuo, que surpreendentemente permitia apenas a respiração, mas não a propagação de sua voz.
"Não posso falar,não posso escrever, mas posso respirar".
De repente, a bolha estourou e ela, sem saber como se viu novamente sentada em sua escrivaninha.
Retomou a caneta e o papel. Foi até a cozinha e encheu um copo com água.
Era tudo sua imaginação. Nada foi real.
Porém, havia uma impressão profunda que ecoava em seus ouvidos agora:
"Quando não puder ouvirmos nada além de nossa própria respiração estamos prontas pra escrever".
-E do que mais uma escritora precisa se não apenas existir? - Refletiu sabiamente.
Logo as palavras era uma vez uma grande gota de água que engolia uma cidade saíram da tinta de sua caneta para o papel. E suas palavras mais uma vez conquistaram o mundo, pois haviam primeiro conquistado a ela mesma.




quarta-feira, 22 de junho de 2016





O Sonho Perdido


Um homem velejava em seu barquinho pelo oceano. Aquele era mais um dia em muitos anos onde procurava uma Ilha de tesouros. Já havia parado em várias ilhas, mas em nenhuma delas descobrira qualquer riqueza. 
Em suas buscas passara por grandes aventuras, como fugir de animais selvagens e sobreviver a correntezas gigantes.
Uma noite, avistou uma figura bem estranha nadando na superfície do mar. Era metade peixe e metade mulher. Demorou alguns minutos até que percebesse que se tratava de uma sereia.
-Sereia? 
-Sim. - respondeu a coisa. 
Aquilo não era para ser um diálogo. "Foi apenas um alto pensamento. "-refletiu o homem. Deveria ser fruto de sua imaginação. "E não deveria conversar com ela". 
Ilusão ou não sentiu que deveria dizer algo quando ela se aproximou sacudindo as barbatanas. 
A meio mulher olhou-o fixamente em seus olhos com um ar de súplica. E elevando uma das mãos chamou-o pelo nome.
Então o homem arriscou:
-O que queres ? 
-Siga-me e te mostrarei. 
O homem pegou seus remos e começou a remar. 
Mas ela virou-se e disse:
-Não é assim. Deves nadar comigo por dentro do mar. 
-Mas eu não sei... 
Antes que terminasse sua frase, a sereia tocou uma de suas mãos. Imediatamente ele sentiu que faltava-lhe completamente o ar.
Então ela disse:
- Já podes respirar dentro da água. 
Com o desespero da luta pela vida, o homem mergulhou no mar profundo e sentiu seus pulmões inflando aliviados.
Agora que viu do que a sereia era capaz o homem decidiu segui-la. Havia um misto de curiosidade e agitação dentro dele. O que estava prestes a descobrir? Será que conheceria outros seres iguais aquela que o guiava? Tentou esquivar-se de seus pensamentos porque alguns deles causavam-lhe o medo da morte. 
Enquanto nadavam, o caminho pareceu-lhe eterno. Haviam tantas perguntas em sua mente. Desejou afugenta -las,até que percebeu que também poderia falar. Então dirigindo -se a mulher-peixe disse: 
-Quem é você e por que estamos nadando? 
-Agora fizestes a pergunta correta. Sou uma sereia habitante do mar abissal de Anísio. Vivemos há centenas de anos e... 
Mas ela interrompeu a fala expulsando um tubarão que rondava-os com um simples estalar de dedos.
O homem ficou ainda mais impressionado e retomou a palavra:
-Como você consegue fazer isso? Você tem poderes mágicos?
-Na verdade não exatamente. 
-Como fez isso então? Insistiu o homem. 
-Uma sereia se alimenta de sonhos. 
-Ainda não entendi. 
-Eu sou a sua sereia protetora. Cada humano tem uma. 
Havia agora uma grande exclamação no olhar do humano que perguntou:
- Eu tenho uma... se-reia pro-te-tora? 
-Sim. Eu vi seu sonho e estou aqui para realizá-lo.
Dito isto a sereia rodopiou em círculo fazendo vários peixinhos se dispersarem. -Venha-disse ela-estamos quase lá. 
O homem agora tinha um sorriso cor de rosa sob olhos prateados de esperança. 
Depois de seguirem por mais dez metros marinhos, pararam em frente a uma concha gigante. 
-Pronto. Aqui estamos. Abra. -Disse a sereia sorridente. 
O homem então retirou a tampa da concha e teve uma grande surpresa. Ela estava completamente vazia. 
-Mas esse não é meu sonho. - Disse ele-Aqui não deveria ter muitas jóias? Era com isso que eu estava sonhando.
-Exatamente-respondeu a sereia. 
Mas o homem agora estava impaciente e disse:
- Ah não sei porque estou perdendo meu tempo com você. Vou embora. 
-Espere, espere-pediu ela com insistência . Mas de nada adiantou. 
O homem estava determinado a voltar. Então ele nadou, nadou, até que chegou a superfície. E voltou a ser apenas um homem com pulmões normais. 
Retornou a sua antiga casa, onde havia deixado para perseguir suas aventuras oceânicas.
Em sua primeira noite em terra firme dormiu e sonhou. Nele sua sereia o visitou e disse-lhe:
- Ah, meu querido, quantas vezes quis te mostrar? Mas agora é tarde demais. Teu sonho está desfeito!
-Mas como isso aconteceu? Perguntou o homem com um tom de desgosto.
-Aquela concha era o portal para a maior Ilha de tesouros que jamais existiu. Olhe! 
Logo, ele avistou uma linda ilha com o tom dourado e iluminado. Havia nela centenas de ouro, diamantes e todos os tipos de pedras preciosas. 
Agora os lábios do homem tremiam como uma folha de papel sob o vento forte. 
Então a sereia continuou:
-Não posso mais existir porque não há mais sonhos em tua mente. 
E desapareceu como o sol perante o crepúsculo. 
Assim, o homem acordou e chorou.  Agora estava determinado a viver a maior aventura de todas,aquela que seria travada em seu próprio eu: o resgate de seu sonho perdido.

quarta-feira, 15 de junho de 2016




A Fera da Floresta

Havia um casal que morava numa floresta.
Numa noite, a mulher, que estava grávida e sozinha em casa porque o marido fora trabalhar, começou a passar mal. Deitou-se na cama e percebeu que havia chegado a hora: Seu bebê estava nascendo.
Quando o marido retornou, tamanha foi sua surpresa e tristeza quando viu o filhinho ao lado da mãe, chorando. A mulher não resistira ao parto.
O homem, por sua vez também não suportou a dor da perda da esposa  e enlouqueceu. Foi embora, abandonando o menino.
Logo, uma grande onça pintada entrou na casa e olhou para o bebê. Num instante pareceu que seus olhos brilharam. Foi então que começou a cuidar dele como sua própria cria. A criança foi crescendo, acreditando fazer parte da floresta. E para assemelhar-se mais aos animais, cobria-se com seus pêlos e pintava-se.
Um dia, quando já estava com dezesseis anos, o rapaz estava caminhando pela mata e avistou um grupo de jovens acampando. Com o instinto de um animal quadrúpede, correu até eles e rosnou.
Logo, muitos riram e fizeram chacota do rapaz. Mas uma bela moça, que não participou das gozações, aproximou-se dele, que parecia agora muito confuso e ao tocar sua mão disse:
-Não fique com medo. Viemos em paz. Não ligue para meus amigos. Eles não sabem brincar às vezes, mas são boas pessoas.
O singular jovem apenas esquivou-se, mergulhando entre as árvores.
Aquele acampamento durou três meses e por esse tempo, muitos animais ferozes tentaram aproximar-se, mas toda vez o rapaz da floresta os expulsava.
A moça que falara com ele ficou muito encantada com sua capacidade de controlar os animais e proteger as pessoas.
E no dia que estava encerrando o acampamento, ela queria que o rapaz voltasse com eles. De alguma forma aquele estranho havia tocado suas emoções mais profundas.
Todos concordaram em procurá-lo, mas como não o encontraram em parte alguma, decidiram ir embora. Mas a moça não quis voltar com eles.
-Continuarei procurando.Vão sem mim. Ele precisa viver como a gente.
Então, mesmo contrariados, os amigos foram embora deixando a garota sozinha em sua busca.
Ela caminhou, caminhou e se deparou com uma grade onça, a mesma que criara o garoto. O animal mirou-a, correndo em sua direção, mas o jovem saindo de trás de arbusto rosnou como se falasse a língua das feras. Nesse momento a assustadora onça pareceu um gatinho assustado, aproximou-se do garoto, que acariciou-lhe a cabeça. Agora ambos rosnavam como se estivessem num diálogo notoriamente sensível.
O mamífero abaixou a cabeçorra e, como uma magnífica reverência, foi embora, desaparecendo por trás de uma montanha arborizada.
A lua estava linda. A floresta parecia tocar uma canção romântica.E os dois jovens se aproximaram.
Não sabiam se comunicar com palavras, mas eram humanos e a natureza os dotara da língua do coração. E foi a essa que recorreram quando suas mãos se cruzaram.
Em breve ele conheceria um outro mundo, mas sabiam que nada poderia fazê-los esquecer de como aprenderam a amar.





































quinta-feira, 9 de junho de 2016



A Floresta de Tulio

Tulio subiu as escadas e entrou em seu quarto. Uma grande onça pintada o mirou sobre o tapete Persa.
Acionou a maçaneta para fugir sem pensar o que havia trazido aquele animal até ali.
Foi então que cada peça do seu dormitório ganhou formas de árvores ou animais. O tapete tornou-se em grama e o assoalho em terra.
O teto havia sumido e o céu estava muito escuro e estrelado para as três horas da tarde registradas em seu relógio.
Mas o que estava acontecendo? Ao redor misturou-se mato, terra, animais caçadores e sua próxima presa:ele, um jovem de vinte anos.
De repente sua visão rodou com uma velocidade nauseante e, repentinamente, como se alguém estivesse desligado o liquidificador, tudo parou.
Todo o cenário agora era o mesmo, mas os animais não o olhavam de maneira ameaçadora e ele estava prostrado de quatro e rosnando.
O que estava acontecendo? Quem era ele? Por que se sentia tão estranho?
Então, uma bela onça branca aproximando-se o cheirou.
Foi então que tomou consciência de sua nova forma:uma onça macho alfa.
Mas como aquilo acontecera? Que fenômenos eram aqueles?
Uma veia palpitou de seu pescoço revelando seu nervosismo.
E a onça branca falou:
-Vamos
Tantas perguntas percorreram sua mente que ele nem soube por onde começar a perguntar para aquela que se comunicava com ele.
E começou a andar ao lado da companheira. Não sabia para onde ia, mas a caminhada o ajudava a pensar.
De repente parou e decidiu perguntar.
-Espere, para onde estamos indo?
-Achei que você soubesse-respondeu a onça fêmea.
Essa resposta foi suficiente para ele entender o que estava acontecendo.
-Sim, vamos-respondeu resoluto.

A onça fêmea então voltou para a caixa de brinquedos e a onça macho voltou a ser um menino para descer à sala de jantar.